segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Ano novo, vida nova...


Mais um ano começando...
Tantos planos... Tantos sonhos...
Em meio aos desejos, os elementos que nos atrapalham: o medo, a insegurança, a ansiedade e as preocupações. Interessante analisar que estes são sinais de que determinadas coisas, assuntos ou sentimentos ainda não foram totalmente entregues nas mãos de Deus. Isso pode parecer radical, mas é a verdade...
Tais sentimentos são resultado da constatação de que não temos poder suficiente para mudar nossas vidas. Por entendermos que somos incapazes, vemos que nossa existência está em mãos frágeis, falhas e sem poder para nada. Jesus nos pergunta se temos como aumentar nossa expectativa de vida (Mt 6.27). Podemos nos enganar dizendo que sim. Que a medicina avançou, que tratamentos melhoraram, que doenças foram erradicadas, mas não é disso que Ele está falando. Ele está dizendo: no último momento, você conseguiria prolongar a sua vida por si mesmo?
Sabemos a resposta. É ela que nos assombra todos os dias...

Descansar em Deus nos liberta disso...
É sabermos que, ao entregarmos nossas vidas nas mãos do Deus Todo Poderoso, estaremos sendo cuidados pelo Ser Majestoso, o Deus Supremo, Aquele que nos criou com um propósito...

Esse caminho foi aberto através da cruz, onde Jesus derramou seu sangue por nós, criaturas que tentamos tomar o lugar de Deus, dando o nosso rumo à nossa vida, sem nos preocuparmos sequer de envolvê-Lo em nossos planos, buscando Sua vontade...

Uma maravilhosa mensagem para o começo do ano encontra-se na segunda carta aos Coríntios, escrita pelo apóstolo Paulo. Esta igreja, localizada em meio à uma metrópole, convivia com o sincretismo religioso, filosófico e cultural, e estava deixando de lado os princípios de Cristo. Resumindo: era uma bagunça. Costumo dizer que a igreja de Corinto tinha problemas em apenas uma coisa: tudo.
Mas, se examinarmos nossa vida, podemos constatar que não somos melhores que essa igreja... Vivemos de acordo com o padrão de uma sociedade que rejeita os princípios de Deus, delegando a Ele apenas o espaço das frases "Graças a Deus" e "se Deus quiser", como clichês, não pensando de forma profunda o que tais frases significam...

É para essa igreja que Paulo escreve:
"Quem está unido com Cristo é uma nova pessoa; acabou-se o que era velho, e já chegou o que é novo..." (NTLH). 

É aqui que ele dá o "segredo": quem está unido com Cristo. Sem Ele e seus ensinos, continuaremos a viver da mesma forma, não interessa quantas vezes passemos do dia 31 de dezembro para 1º de janeiro. É Jesus, com sua transformação feita em nossa vida, que nos faz novas criaturas...
Mais lindo ainda é constatar que essa mudança não precisa ser feita no último dia do ano, na contagem regressiva para meia-noite, vestido de branco, no litoral, na beira da praia. Ou numa ceia em um lugar cuidadosamente escolhido e reservado meses antes. Nem mesmo dentro de uma igreja... Ela pode ser feita a qualquer momento, em qualquer lugar. Até mesmo agora, no local onde você está lendo esse texto...

Um Ano Novo, com uma vida nova, sendo nova pessoa, só podemos ser em Cristo. 
Sem Ele, estaremos colocando remendo novo em pano velho, expressão usada por Ele mesmo (Mateus 9.16). 

Que seu 2017 seja totalmente diferente de todos os anos anteriores, cada vez mais próximo a Deus, através do amor de Jesus!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Três anos depois...

Depois de três anos resolvi voltar a escrever...
Meu pobre blog estava abandonado, com mato na altura da cintura... 
Já postei sobre ter deixado de escrever aqui, há algum tempo atrás (leia-se "anos")... Então essa volta nem é inédita... Mas quem sabe o cuidado agora seja constante...

Como disse Lulu Santos:
"Eu tô voltando pra casa outra vez..." (música Casa)


Mais velha, ainda crítica,  (espero que mais sábia ou, pelo menos, menos ridícula), ainda com vontade de conversar com o mundo...

Logo a gente se vê por aqui novamente...

domingo, 21 de julho de 2013

Jesus? Pra que?

No sermão da montanha, Jesus passou tempo corrigindo o ponto de vista das pessoas em relação ao que é uma vida com Deus, agradando a Deus, da maneira que Deus deseja. Sério, pense comigo: Ele é Filho de Deus, quem melhor do que Ele, convivendo com o Pai de forma harmoniosa e perfeita, para nos ensinar do que o Pai gosta ou não gosta?
É triste perceber que o homem, ao longo de toda a sua existência, pensa que suas obras podem agradar a Deus e buscar perdão Dele. 
Daí você me pergunta: "perdão do que? Eu não mato, não roubo e não adultero."
Ok, entenda que essa tríade só não é mais citada do que a "sexo, drogas e rock n' roll". 
Acontece que pecado não se resume a essas três infrações gravíssimas (que fazem com que você perca muito mais do que pontos na carteira com Deus):

"Mas as suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá. Pois as suas mãos estão manchadas de sangue, e os seus dedos, de culpa. Os seus lábios falam mentiras, e a sua língua murmura palavras ímpias. Ninguém entra em causa com justiça, ninguém faz defesa com integridade. Apoiam-se em argumentos vazios e falam mentiras; concebem maldade e geram iniquidade." (Isaías 59:2-4)

"Não, Marielen, isso é exagero", você pode pensar. Pecados são coisas muito graves, eu não cometo pecados. "
Ah, não? Analise essa lista: 
"Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti, que os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus." (Gálatas 5:19-21)

E essa:
"Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis." (Romanos 1:28-31)

Reconheceu nelas alguma coisa que você já tenha feito?
Pois é, o diagnóstico é grave: nada do que você faça pode apagar isso da sua ficha diante de Deus. NADA, realmente NADA. É o próprio Deus quem avisa:

"Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados." (Isaías 43:25)

E sabe porque nossas obras não apagam as más? Por que esse pecado que você comete contamina tudo o que você faz diante de Deus. Os profetas já nos avisavam que nada do que fosse feito seria aceito por Deus para apagar pecados: 

"... todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo. Murchamos como folhas, e como o vento as nossas iniquidades nos levam para longe..." (Isaías 64:6)

Por isso houve o sacrifício de Jesus. Por isso aconteceu a crucificação! 
Porque apenas para algo tão grave quanto o pecado havia a necessidade de uma sentença tremendamente severa. Entendeu agora?
E pior: essa sentença era nossa! 
Mas não se engane achando que o máximo que aconteceria com você seria ser crucificado e depois ir para o céu. Nããão, nada disso! A sentença era a separação total de Deus, num lugar com total ausência de Deus, o que a Bíblia chama de inferno. 
É óbvio que a cultura popular acha que o inferno é um lugar de reinado do capeta, que vão pra lá quem segue a ele, mas isso não é verdade! O inferno foi criado para PUNIÇÃO do diabo e seus anjos, que desobedeceram a Deus. O caso é que Deus é justo, e todos os que se rebelam contra Ele vão para o mesmo lugar. Simples assim. Entenda que por mais que Deus nos ame, a ponto de sacrificar Jesus em meu lugar, a Sua justiça não entra em crise com seu amor. 
Jesus pagou essa dívida que eu tinha com Deus. E o Pai reconheceu Sua obediência, valorizando-o desta forma: 

"Então, Jesus aproximou-se deles e disse: "Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra." (Mateus 28:18)

O apóstolo Paulo continua:
"Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo,  tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz! 
Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai." (Filipenses 2:5-11)

Mas agora eu decido se assino a promissória com Ele. Aí é que o bicho pega. A decisão é minha... E...

Para evitar se submeter a Cristo (sim, porque benção de Deus todo mundo quer, mas reconhecer Jesus ninguém quer), o homem escolhe suas próprias maneiras de agradar a Deus, sem abrir mão de seu próprio pensamento. Foi por ver pessoas vivendo dessa forma que o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: 

"Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2)

Quando chegarmos diante de Deus, Ele não vai perguntar o que você fez de boas coisas na Terra. Não seja bobo, Ele sabe o que você faz, até mesmo  coisas que mais ninguém sabe. Suas obras consideradas boas pelos seus olhos nunca seriam suficientes para encobrir as más que você faz, consideradas pecado por Deus. É por isso que Ele sacrificou o próprio Filho em seu lugar. 
A pergunta que Ele fará é: que valor o sacrifício do meu Filho teve em sua vida?

Pense nisso... E pergunte-se se a sua espiritualidade vai ajudá-lo, quando olhar nos olhos de Deus Pai e dizer que preferiu seguir qualquer coisa da moda, ao invés de seguir ao Filho Amado do Deus Todo Poderoso...
Entenda que isso não é uma ameaça, é um aviso de que a coisa é muito mais séria do que você imagina... E sua escolha hoje, HOJE, vai influenciar o modo como você vai passar a eternidade... 
Jesus morreu por amor a você. Este post está sendo escrito por amor a você, que está lendo. 
Mas, como com qualquer ser humano na face da Terra, a escolha está em suas mãos...

Ah, antes que eu me esqueça: diferente do que o mundo diz que "somos todos filhos de Deus", a Bíblia ensina: 

"Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus. Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade." (João 1:12-14)

Entenda: você é criatura de Deus. CRIADO por Deus. Ser FILHO Dele é apenas através de Jesus Cristo. "Ah, mas eu não quero Jesus..." 
Como ser filho de Deus rejeitando o primogênito perfeito Dele, ainda mais depois de tudo o que Ele fez por você? Isso não tem lógica!


Respondeu Jesus: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.  (João 14:6)


Desejo que Deus te abençoe, no nome precioso do Seu Filho Jesus, Senhor e Salvador da humanidade, e que você venha a conhecer este amor, que nos torna filhos de Deus!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A espiritualidade da vergonha

Na sociedade moderna, a tolerância transformou-se na maior de todas as virtudes. Aceita-se tudo, não se critica nada. O que mais me preocupa não é a capacidade de compaixão e paciência que a tolerância produz em nós, mas a ausência, cada vez maior, de valores e princípios absolutos que nos ajudam a separar o justo do injusto, o certo do errado.
O sociólogo francês Gilles Lipovetsky, em seu livro “A Sociedade Pós-Moralista”, descreve assim a tolerância na cultura moderna: “A tolerância adquire uma maior fundamentação social não tanto pelo fortalecimento da compreensão dos deveres de cada um perante o próximo, mas em razão de uma nova dimensão cultural que rejeita os grandes projetos coletivos, exaurindo de sentido o moralismo autoritário, diluindo o conteúdo das discussões ideológicas, políticas e religiosas de toda a conotação de valor absoluto, orientando cada vez mais os indivíduos rumo à sua própria meta de realização pessoal”. Ou seja, a ausência de uma consciência coletiva, a rejeição a qualquer verdade que seja absoluta e a busca pela realização pessoal geram uma forma perigosa de tolerância.
Entretanto, o perigo da rejeição a uma verdade absoluta está no fato de que ser tolerante hoje implica, necessariamente, não julgar, não ter mais critérios que separem o bem do mal, o justo do injusto; e, uma vez que não julgamos mais, poucas coisas nos chocam ou abalam e, quando o fazem, é por pouco tempo. Vivemos um estado de normalidade caótica, de paz frágil, de tranqüilidade tão relativa quanto os nossos valores.
Na oração de confissão de Daniel há uma declaração que vem se tornando cada dia mais rara entre nós: “A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, o corar de vergonha” (Dn 9.7). Isto não acontece mais. Somos demasiadamente tolerantes para “corar de vergonha”. Mesmo diante de fatos trágicos e deploráveis que vemos todos os dias, o máximo que conseguimos é uma indignação passageira. Porém, é a possibilidade de corar de vergonha que não me permite rir da corrupção, achar normal a promiscuidade, conviver naturalmente com a maldade e a mentira, ou, ainda, achar graça da injustiça.
Vivemos numa cultura que se orgulha do pecado, glamourizando-o através dos meios de comunicação, fazendo das tribunas públicas um palco de mentiras, organizando marchas para celebrá-lo, rindo da corrupção, exaltando a esperteza. E ninguém fica corado de vergonha.
Daniel contrasta, de um lado, a natureza justa de Deus e, de outro, a corrupção e a injustiça do seu povo. Ele só é capaz de fazer isto porque sua ética e moral estão ancoradas em verdades absolutas sobre as quais não pode haver tolerância. A conclusão a que ele chega é que, diante da justiça divina e do quadro trágico de um povo que se orgulha de sua maldade, o que sobra é o “corar de vergonha”.
Ele nos apresenta aqui a importância de uma vergonha saudável e essencial na preservação da dignidade humana e espiritualidade cristã. A vergonha aqui é a virtude que nos ajuda a reconhecer nossos erros, limitações, faltas e pecados porque ainda somos capazes de perceber que existe algo melhor, mais belo, mais sublime, mais nobre, mais justo, mais santo e mais humano pelo qual vale a pena lutar. A vergonha nos impõe um limite. É por isto que o caminho para o crescimento e amadurecimento passa pela capacidade de ficar corado de vergonha diante de tudo aquilo que compromete a justiça e a santidade. No caminho da santidade lidamos com o amor, verdade, bondade, justiça, beleza, entrega, doação e cuidado. A falta de vergonha nos leva a negar este caminho e optar pela mentira, manipulação, engano, falsidade, hipocrisia e violência.
“Corar de vergonha” é uma virtude que falta na experiência espiritual moderna, a virtude de olhar para o pecado que habita em nós, a mentira e o engano que residem nos porões da alma, a injustiça que se alimenta do egoísmo, a malícia que desperta os desejos mais mesquinhos, e se entristecer. Precisamos reconhecer que foram os nossos pecados que levaram o Santo Filho de Deus a sofrer a vergonha da cruz. Quando olhamos para a cruz e contemplamos nela a beleza e a pureza do amor, só nos resta “corar de vergonha”.

Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.


Fonte: 
Site dos Batistas do Norte do Paraná





terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Jesus que nos desaponta


por John Koessler


Quando veio ao mundo, Jesus Cristo fez questão de afirmar que seria motivo de escândalo para muitos, até mesmo de tropeço. Tais advertências parecem perder sentido diante do amor e da obra de salvação promovida pelo Filho de Deus. Porém, aqueles que servem a Cristo são tão propensos a dores e frustrações quanto qualquer outro mortal. Se os evangelhos servem de indicação, podemos até dizer que a decepção é uma certeza. Quem lê os relatos da passagem do Salvador pela terra percebe: o que eles são, senão um registro em larga escala de decepções com Jesus?
Pergunte-se a João Batista, por exemplo. Sentindo-se incomodado na prisão de Herodes, o profeta enviou mensageiros a Jesus com a pergunta direta: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” A indagação vem como uma surpresa. Afinal de contas, João foi um dos primeiros a identificar o Rabi da Galileia como “o qual vem após mim” (João 1.27).  E fez questão de afirmar que ele é que precisava ser batizado pelo Filho de Deus, e não o contrário. João também viu o Espírito de Deus descer sobre Jesus em seu batismo e ouviu uma voz dizer do céu: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”, conforme Mateus 3.17. Portanto, se alguém sabia a resposta a tão inquietante dúvida era o próprio João Batista.
É possível que, nas circunstâncias tão extremas nas quais vivia naquele momento, João tenha se desencorajado. Talvez, a escuridão da prisão de Herodes tenha diminuído sua confiança em Jesus e em sua missão. Mas isso também parece improvável. João estava acostumado a uma vida de dificuldades. Ele se vestia como um nômade e vivia como um homem selvagem do deserto, sobrevivendo à base de insetos e mel, de acordo com o relato de Mateus. Será razoável acreditar que uma cela de prisão poderia destruir seu espírito? Mais ainda, João não ficaria surpreso por se tornar prisioneiro de Herodes; afinal, como conhecedor das Escrituras que era, ele sabia o que acontecia com os profetas – e o destino de um profeta é, em nove de dez vezes, ruim. João dificilmente se chocaria com sua experiência.

“METAS” PARA DEUS
A pergunta de João mostra sua decepção com o relatório que recebeu do ministério de Jesus. Os contornos gerais das expectativas do profeta do Novo Testamento estavam marcados em seus alertas aos líderes religiosos, quando estes vieram até ele para serem batizados. “Raça de víboras!”, João trovejou. “Quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer entre vós mesmos: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Lucas 3.7-9).
Segundo João, Jesus tinha vindo para peneirar a colheita. De acordo com a Palavra, ele iria juntar o trigo e queimar a palha com fogo inextinguível. Em vez disso, Jesus estava percorrendo as montanhas da Galileia pregando o Evangelho e curando os doentes. O machado havia de fato sido afiado e o fogo, aceso; mas Jesus não parecia interessado em nenhum dos dois. Esse fato estava em tamanha contradição com o entendimento de João a respeito do que o Messias faria que ele não podia evitar seu questionamento. O que está por trás daquela pergunta é, sem dúvida, uma decepção. Expectativas frustradas se encontram no centro de toda decepção. Esperamos alguma coisa e recebemos algo diferente. Queremos carne para o jantar e temos frango. Pensamos que vamos receber a restituição do imposto de renda e em vez disso somos acionados por uma dívida como Fisco. A previsão do tempo prometeu sol para o fim de semana, mas chove! Decepções como essas são tão comuns que, provavelmente, deveríamos estar acostumados a elas.
Mas as coisas são diferentes com Deus. Esperamos um tratamento melhor da parte do Senhor. Sabemos que as pessoas irão nos desapontar, apesar desse conhecimento não aliviar nossa decepção quando isso de fato acontece. Porém, Deus não é assim. Podemos não saber muito de teologia, mas pelo menos sabemos que ele não mente. Não há variação ou sombra de mudança no Senhor; sim, ele é confiável. No entanto, essa boa teologia, por vezes, leva a más práticas. Ela nos faz confundir confiança com previsibilidade. Por pensarmos que a mente de Deus e a nossa são iguais, estabelecemos metas para o Todo-poderoso. Sabemos o que queremos, e então colocamos isso na boca do Senhor, e permitimos que nossos desejos governem nossas expectativas.
Algumas vezes, é verdade, as metas que estabelecemos se alinham com as intenções de Deus. Quando isso acontece, podemos nos sentir tão encorajados que estabelecemos novas metas para ele. Porém, mais cedo ou mais tarde – e provavelmente mais cedo, e não mais tarde –, o agir de Deus estará em tamanho desacordo com nossa expectativa que mal saberemos o que pensar. Oramos por cura, e o doente morre. O emprego, que parecia tão perfeito, fica para outro. E a pessoa a quem devotamos tanto amor não retribui nosso sentimento. O resultado é mais do que uma crise de fé, pelo menos como costumamos definir fé.

INDIGNADOS E AFLITOS
É claro que nem todas as decepções são iguais. A maioria tem pouca importância e é facilmente esquecida. Algumas, porém são mais sérias. Outras nos assombram todos os dias. A decepção de João era do tipo mais sério – era o tipo de decepção que Jonas sentiu quando viu que o povo de Nínive seria poupado da destruição pelo Senhor. Era a mesma frustração que levou o profeta Habacuque a reclamar perante o Altíssimo: “Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão?” É a mesma decepção que eu e você sentimos quando vemos injustiças ao nosso redor. A opressão e o mal parecem estar em toda parte, e Deus parece fazer muito pouco ou nada a respeito.
Já que somos pessoas de ação e fé, fazemos o que está ao nosso alcance para fazer a diferença. Vamos às ruas e ajudamos mendigos. Doamos nosso dinheiro a organizações que lutam por justiça. Votamos e tentamos mudar o sistema. Porém, não importa o que façamos, os problemas se multiplicam. Continuamos à procura de reforço, mas nenhum salvador da pátria aparece no horizonte. De que adianta o Evangelho, se ele permite que um ímpio como Herodes trate um profeta de Deus como seu brinquedinho pessoal? Enfim, desapontamo-nos com o Senhor porque ele permite que os culpados fiquem impunes.
Curiosamente, é possível que se encontre as duas posturas – indignação e aflição – na mesma pessoa. Tais pessoas estão simultaneamente frustradas com Deus por deixar os culpados impunes e aflitos com a ideia da condenação de alguém. São como as pessoas que Jesus descreve depois que os mensageiros de João se retiram: “Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros: ‘Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes’. Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: ‘Tem demônio!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!’ Mas a sabedoria é justificada por suas obras” (Mateus 11.16-19). Quando Jesus condena a geração de João com essas palavras, também condena a nossa e oferece uma franca avaliação de nossa ambivalência. O que, de fato, queremos de Deus? Justiça ou misericórdia? O que parece é que desejamos a justiça sem julgamento, e a misericórdia sem justiça.
As condenações de Jesus revelam uma verdade ainda mais desconcertante. Elas sugerem que, de certa forma, Cristo desaponta a todos – e desaponta-os de igual modo. O Filho de Deus não decepciona apenas as pessoas de Nazaré, que o levaram para fora da sinagoga e tentaram jogá-lo de um penhasco porque ele não quis realizar milagres. Ele decepciona também as pessoas de Corazim e Betsaida, onde ele efetivamente fez maravilhas. Sim, Jesus decepcionou a amigos e inimigos da mesma maneira.
A resposta de Cristo à pergunta de João deveria ser uma pista de que deixamos algo passar despercebido. Nossa decepção está ligada, principalmente, a um problema de percepção. O mais impressionante a respeito da resposta de Jesus é que ele não oferece nenhuma informação nova. João já sabia tudo aquilo que o Filho de Deus fala para ele. Até mesmo a descrição dos milagres é apenas um lembrete para João de tudo que ele já ouviu. Como, então, a resposta de Jesus ajuda? Ela faz uma alusão a uma passagem de Isaías, inserida no contexto de uma promessa que João, como um estudioso das Escrituras, reconheceria imediatamente: “Fortalecei as mãos frouxas e firmai os joelhos vacilantes. Dizei aos desalentados de coração: ‘Sede fortes, não temais. Eis o vosso deus’. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem e vos salvará” (Isaías 35.3-4).
E qual é a resposta de Jesus aos mensageiros de João? “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o Evangelho” (Mateus 11.4-5). Com efeito, é como se Cristo dissesse: “Diga a João que o seu Deus veio – que veio com vingança. João, seu Deus veio para te salvar”. Em outras palavras, assim como João, nós estamos desapontados com Jesus porque não vemos o que ele está realmente fazendo. Acontece que temos trabalhado sob um grande equívoco. O Salvador veio por nós, mas isso não significa que ele veio para nos agradar.  Jesus veio por nós, mas ele não nos deve satisfações de seus atos. Logo, ele não vai se submeter aos nossos planos, não importa quão bons eles possam ser – em vez disso, ele exige que nós nos submetamos a seus planos.

DOMÍNIO DA GRAÇA
A solução para a nossa decepção é, então, engolir e tolerar isso? Ou admitir que a vida é decepcionante e decidir superar? Não, é justamente o oposto. As palavras de despedida de Jesus aos discípulos de João foram tanto palavras de bênção quanto de aviso: “E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mateus 11.6). Essas foram as últimas palavras que João ouviu de Jesus antes de morrer, e são as últimas palavras de Cristo para nós sobre o nosso desapontamento, independentemente do motivo.
Diante de uma grande decepção, normalmente queremos uma explicação. Isso porque, de maneira tola, pensamos que assim nos sentiremos melhor. Mas já nos ocorreu que isso, na verdade, pode acarretar efeito contrário? Ao invés de uma explicação, Jesus nos oferece algo infinitamente melhor: ele mesmo. Quando se trata de decepção, não há outra solução. A decepção nos faz desejar devolver na mesma moeda. Enquanto nos agarrarmos a isso, a decepção irá envolver nosso coração como uma serpente; quanto mais forte nos apegarmos a ela, mais ela nos dominará. A única maneira de nos libertarmos é nos ajoelhando diante de Jesus.
Podemos nos agarrar à decepção ou podemos nos agarrar a Cristo. Podemos colocar nossa decepção sob o poder da cruz e nos agarrar à esperança. Quando entregamos nossa decepção a Cristo, na verdade estamos nos entregando a ele; e, enquanto nos apegarmos à esperança, estamos nos rendendo ao domínio da graça de Deus. João sabia disso. Foi isso que a voz vinda do céu havia dito o tempo todo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3.17).  Jesus desaponta a todos. A todos exceto, exceto um – o Pai.

John Koessler é escritor e professor de estudos pastorais no Instituto Bíblico Moody, nos Estados Unidos

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sobre a Marcha das Vadias


Zenilda Reggiani Cintra, pastora e jornalista, Taguatinga, DF

Hoje em dia as mulheres são taxadas de vadias por qualquer motivo. Jovens, meninas, mulheres de todas as idades recebem esse adjetivo até mesmo de outras mulheres, por causa de discussões, diferenças de opiniões, rivalidades, brigas com namorados ou maridos e, pasmem, até mesmo quando a mulher é estuprada, por mais incrível que pareça.

Foi por este último motivo que surgiu a Marcha das Vadias, acontecida no último final de semana de maio, em vários locais no Brasil, como parte de um movimento internacional. O nome veio em razão da palavra de um policial canadense a respeito de segurança em uma universidade na qual estavam acontecendo vários casos de estupro. Como medida de prevenção, orientou as mulheres a não se vestirem como vadias.


As palavras do policial se tornaram o mote para a marcha, um protesto contra a crença de que as mulheres que são vítimas de estupro pediram isso devido as suas vestimentas. Para impactar a opinião pública, as participantes usam roupas provocantes como blusinhas transparentes, lingeries, saias, salto alto ou apenas sutiã e escrevem frases pelo corpo.
É lógico que a roupa da mulher, ou a falta dela, não justifica o estupro, mas isso não significa que concordamos que uma mulher possa vestir-se de maneira indiscreta, expondo o seu corpo indevidamente. Mas ainda que assim seja, nada justifica o estupro, ou o uso da palavra vadia para ofender uma mulher e, muito menos, como nome para uma Marcha. “Pra mim, o nome ideal seria ‘Marcha das Mulheres Livres’, mas não teria tanto impacto na mídia”, opina Tica Moreno, blogueira militante (www.tpmrevista.com.br). As mulheres enfatizam um termo pelo qual são estigmatizadas, procurando dar a ele um significado positivo. “Eu acho muito difícil reapropriar o significado de um nome”, afirma Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará, e cronista de cinema, também na revista TPM.
É lamentável que uma mulher cristã não possa participar de um ato de protesto, legítimo e que busca a justiça, por causa da maneira como ele acontece. Sentimo-nos constrangidas pelo nome e pela forma como as mulheres são expostas na marcha. Não é porque uma mulher cristã é escolarizada e militante que se justificam atitudes que depõem contra seu testemunho cristão, por mais que saibamos que devemos empreender todos os esforços para combater o estupro.
Muitos dos sofismas deste tempo trabalham sutilmente contra os nossos valores mais profundos e relativizam a integridade de uma mulher. Nossa maneira de lutar também passa pela ética cristã: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim  poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus” (II Cor. 10.4,5).

Extraído de O Jornal Batista, ed. 28, de 08/7/12
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E você? O que acha?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Meu direito de ser triste



















Ester Carrenho, da revista Cristianismo Hoje

Pego emprestado o titulo de um artigo do psiquiatra infantil, Oswaldo Di Loretto para falar do quanto tendemos a fugir das tristezas que são naturais no decorrer da vida. Nos tempos bíblicos do Antigo Testamento, o pranto fazia parte da cultura israelita. Era comum as pessoas aparecerem em público vestidas com panos de saco e com cinzas sobre a cabeça, como sinal de uma tristeza profunda decorrente do luto ou de um drama humanamente sem solução. Todos respeitavam a atitude, e muitos eram solidários ou se identificavam com o sofredor. Ou seja, havia um espaço na vida das pessoas para se entristecer e aceitar a tristeza do outro.

O tempo passou, alguns hábitos foram extintos e novas posturas ganharam espaço. Hoje, vivemos uma época em que a tristeza é vista como um mal que deve ser evitado a todo e qualquer custo. Isso fica claro quando não queremos contar a verdade sobre um diagnóstico de doença terminal e usamos argumentos paliativos em relação ao doente, ou quando oferecemos calmantes a alguém antes de contar da morte de um amigo ou parente próximo. Em muitos cultos religiosos, os fiéis são até estimulados a jogar a tristeza fora, como se o abatimento e a angústia fossem sentimentos prejudiciais e não aceitos por Deus.

E o problema começa bem cedo. As crianças não têm a permissão para ficarem tristes. Os pais sempre dão um jeito de arrumar algum entretenimento para o pequeno que quebrou o brinquedo favorito ou perdeu o bichinho de estimação; rapidamente, o filho choroso é contemplado com um novo brinquedo ou outro animal, sem ter tempo para internalizar o sofrimento e amadurecer diante da dor da perda. Pior ainda é quando se oferece um chocolate ou bala para a criança entristecida, como que querendo “adoçar” algo que deve ser vivenciado, e não camuflado. 


No caso dos adultos, é grande o arsenal de drogas medicamentosas que têm a capacidade de amenizar e bloquear a tristeza, promovendo uma alegria mecanizada e sem contentamento. Em nossa sociedade, toda manifestação de tristeza é vista como um tipo de depressão que precisa ser medicada.
Esquecemo-nos, contudo, que quem não consegue vivenciar a tristeza em toda sua profundidade também não conseguirá sentir a alegria em toda sua intensidade. Engana-se quem pensa que só a alegria expressa satisfação e contentamento na vida. É possível experimentarmos a tristeza, mesmo que intensa, e ainda assim revelarmos um coração satisfeito e contente, produzindo tesouros para nós mesmos e para os outros. “A poesia nasce da tristeza”, diz Rubem Alves.
Todos, mais cedo ou mais tarde, passaremos por tristezas. Algumas serão leves e passageiras; outras, profundas, como as perdas trágicas e inesperadas. Outros carregarão sempre uma história de privação e desamparo. Porém, podemos reconhecer as dores vividas e encontrar, no lamento – às vezes, milagrosamente –, cicatrização das feridas. Claro, tentamos fugir da tristeza porque é um sentimento que traz dor e desconforto. No entanto, há também beleza e crescimento no caminho da dor. A compaixão, a misericórdia, a ternura e o amor são desenvolvidos com muito mais profundidade por aqueles que se abrem e corajosamente vão até o fim no processo de se entregar às situações de profunda tristeza, estejam elas presentes ou circunscritas ao passado.
Salomão, rei de Israel nos tempos bíblicos e tido como um homem extremamente sábio, descobriu essa realidade. São dele as palavras: “A tristeza é melhor do que o riso, porque o rosto triste melhora o coração”. Cristo, por sua vez, experimentou o pranto publicamente, quando chorou a morte de seu amigo Lázaro. A caminho do Calvário, o Filho de Deus entristeceu-se profundamente diante da perspectiva de tamanho sofrimento. Em outras ocasiões, contudo, ele foi a festas e alegrou-se com seus discípulos. Então, podemos concluir que tanto a tristeza quanto a alegria são sentimentos que fazem parte do ser gente.
Quem conhece a tristeza no próprio ser sabe acolher as pessoas que passam pela dor. Gente assim consegue aceitar, respeitar e criar espaços para que aqueles que derramam lágrimas de tristeza, seja lá qual for a razão, possam se vestir de “saco e cinzas”, sem censura.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tome cuidado com o contexto






















Já se perguntou porque os pregadores e estudiosos bíblicos dão tanta  importância ao "contexto" de cada passagem na Bíblia? Na verdade, tomara que dessem mais importância! Nesta breve reflexão, D.A. Carson, um dos maiores intérpretes da atualidade, usando apenas o exemplo de José em Gênesis 39, revela o quanto se pode extrair de um  texto bíblico apenas considerando o contexto. Se a reflexão lhe ajudou, por favor, copie o link no final e passe adiante.

Hoje em dia a maioria de nós já estamos familiarizados com vozes “pós-modernas” que advogam significados abertos. Isso quer dizer, significados que, no final das contas, você ou sua comunidade interpretativa “descobrem”. Isso não é necessariamente o significado que está no texto, e nem necessariamente o que o autor original quis dizer.
Não é nenhuma surpresa que quando essas vozes pós-modernas se voltam para a Bíblia, elas com freqüência são atraídas pelas porções narrativas, uma vez que estas geralmente são mais sujeitas a diferentes interpretações do que um discurso. Admitamos, narrativas são comumente tiradas de seus próprios contextos nos livros nos quais elas foram encaixadas, e são postas isoladamente.
Sem as limitações contextuais, as possibilidades interpretativas parecem se multiplicar, o que é, claro, o que os pós-modernos querem. As narrativas têm outras virtudes: são evocativas, afetivas, imaginativas, memoráveis. Entretanto, a menos que se tome cuidado, são mais facilmente mal interpretadas do que passagens discursivas.
De fato, narrativas curtas não só devem ser interpretadas dentro da estrutura do livro no qual se encontram, mas dentro do próprio corpo literário, e finalmente dentro do cânon. Considere, por exemplo, Gênesis 39, o relato dos primeiros anos de José no Egito. Uma pessoa pode ler a narrativa e extrair dela excelentes lições em como resistir a tentações (p.ex. José se refere ao pecado sexual para o qual ele foi tentado pela esposa de Potifar como “um pecado contra Deus”; não era apenas uma mera fraqueza ou defeito. Ele evita a companhia da mulher; diante da cantada, ele considera sua pureza mais importante para ele do que seu futuro). Porém, uma leitura cuidadosa dos versículos de abertura e fechamento do capítulo também mostram que um dos pontos mais importantes da narrativa é que Deus está com José e o abençoa mesmo no meio das circunstâncias mais amedrontadoras: nem a presença de Deus, nem a bênção de Deus estão restritas a um estilo de vida feliz.
Agora, leia o capítulo no contexto da narrativa precedente: note que Judá se torna o contraste de José. Judá foi tentado em circunstâncias de conforto e abundância, e sucumbe ao incesto; José foi tentando em circunstâncias de escravidão e injustiça, e manteve sua integridade.
Depois leia o mesmo capítulo dentro do contexto do livro de Gênesis. A integridade de José está atrelada com o meio pelo qual Deus providencialmente provê alívio da fome, não somente para milhares, incontáveis pessoas, mas para o povo da aliança de Deus, em particular.
Em seguida, leia dentro do contexto do Pentateuco. A narrativa é parte da explicação de como o povo de Deus termina no Egito, o qual levou ao Êxodo. Os ossos de José são levados quando o povo deixa o Egito.
Amplie o horizonte agora para encaixar-se no cânon como um todo: de repente a fidelidade de José em questões pequenas é parte da sabedoria providencial que preservou o povo de Deus, levou ao êxodo que serviu como um tipo de uma libertação ainda maior, e finalmente que chegou ao filho distante de Judá, Davi, e por sua vez a um filho seu mais distante ainda: Jesus! 
Então, embora possa ser mais apropriado aplicar Gênesis 39 simplesmente como um relato moralizador que nos conta como lidar com a tentação, a perspectiva que se ganha ao considerar um contexto mais amplo revela múltiplas vantagens de se ter mais conexões e significados que leitores (e pregadores) atentos não devem ignorar.

D. A. Carson
Extraído de: www.iluminalma.com

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Hoje não... E nem nos outros dias...

O pior de tudo não é ver o facebook repleto de erros de português. Claro que quando vejo palavras como “simplismente”, “menas”, “axo” escritas sobre uma bela foto, tenho vontade de pegar uma caneta vermelha e escrever na tela do computador. Frases de coração partido, ou sensuais ao extremo, de meninas que ainda nem aprenderam a resolver uma equação de 2º grau também não chegam a tirar meu sono. A mediocridade escolar dessas pessoas ainda é suportável. 
Creio que o pior de tudo é conhecer as figuras que vomitam pérolas extraídas do Google, ignorando até mesmo as pessoas citadas em seus posts. Claro que essas pessoas ignoram que qualquer um sabe que elas não pegam num livro nem sob tortura, nem por engano. 
Garotinho, seus amigos sabem que você não lê nem o enunciado de sua prova, que você começa a suar frio quando dá de cara com palavras proparoxítonas. Encontros consonantais são invenção do capeta, não é? 
Garota, suas amigas dão risada ao imaginar você com um livro na mão, folheando páginas e realmente se importando com algo em sua cabeça que não seja seu cabelo precisando de renovação de tintura na raiz... Claro que você, pobre ser, ignora a desonra que comete com o nome dos escritores usados por você como elevadores sociais. Claro que você adora citar “Clarisse Lispector”, quando o nome da escritora é escrito com “c”. Mas quem se importa? O importante é escolher uma frase na internet, como quem busca um nome na lista telefônica, ilustrá-la com uma bela imagem e publicá-la, esperando que seus amigos curtam.


Você canta Michel Teló e no mundo virtual seu avatar cita Renato Russo? 
Literatura para você é Crepúsculo e no facebook você cita Martin Luther King, com sua frase sobre o silêncio dos bons? Você já se deu ao trabalho de conhecer seu discurso mais famoso? Sim, começa com “eu tenho um sonho...”, mas você sabe qual é a quinta palavra dessa frase? 
Você, que deseja realmente demonstrar algum conteúdo intelectual, POR FAVOR, leia um livro. Faça este esforço, vale a pena. Garanto que não dói. Assim, você vai aprender a desenvolver ideias, debater assuntos, não apenas “curtir” e “compartilhar”. De quebra, você vai aprender a escrever. Não deixe que sua vida dependa do corretor ortográfico do Word (sim, aqueles subscritos verdes e vermelhos não são enfeites...). 
Tome uma atitude. Mostre que a dor e agonia de seus professores de português não foram em vão. 
Comunique ao mundo que você realmente vive a ideia de que a educação pode mudar o país, não apenas compartilha imagens falando sobre isso. Busque ser um intelectual, não um fake (isso você entendeu, não é?). Os pensadores buscaram mudar o mundo através da renovação da mente, da linha do pensamento, do ponto de vista, não da repetição burra e sem análise... 

Agora, se você decidiu ser um pseudo-intelectual, seguem as dicas valiosas do blog Sou paranóico

1. Comece todas as frases com uma citação de um filósofo, de preferência com um nome alemão, o mais obscuro possível.

2. Ouça alguns fragmentos de música clássica, o suficiente para criticar qualquer uma delas, com qualquer pessoa que encontre à sua frente.

3. Leia a orelha e a contracapa dos livros que encontrar na livraria mais próxima, e critique-os junto dos amigos, com cara de quem leu os livros na íntegra.

4. Vá ao dicionário (ou à wikipédia) e procure as dez palavras com maior número de sílabas que conseguir encontrar. Empregue-as avidamente.

5. Se não quiser ter o trabalho de memorizar as dez palavras, utilize o máximo possível de estrangeirismos. Para este efeito dê preferência a alocuções latinas, francesas e inglesas, pela ordem.

6. Utilize o máximo possível de palavras terminadas em “ismo”, tais como “interpretatismo”, “conceitualismo”, temperismo” e outras, mesmo que não signifiquem coisa nenhuma.

7. Veja filmes antigos e os utilize para comentá-los com expressões tais como: “é o metapsiquismo do transexistencialismo crônico, na observância das condições ‘sine qua non’ para a hermenêutica da propedêutica”.

8. Fale pouco em muitas palavras. Não diga, por exemplo, “Vou beber água”. Fica muito melhor a um pseudo-intelectual dizer “Vou repor o balanço hídrico”. Ainda melhor, poderá dizer: “Vou fazer como a Frieda, o personagem do livro ‘As Virgens do Lago’, de Von Klinkerhoffen, na cena em que ela fala com se dirige ao seu tutor filosófico” – ninguém sabe quem é o Von Klinkerhoffen. Imagine o quanto você brilhar ao dizer que esta verborréia toda significa que vai beber água.

9. Comente as notícias dos telejornais dos canais estrangeiros, da TV a cabo. Qualquer que seja a besteira que você diga ninguém vai notar, pois seus amigos (como você) nunca assistem a esses noticiários.

10. Fale de tudo sem dizer coisa nenhuma, com o ar de quem é o maior perito do mundo no assunto sobre o qual falou.

11. Regra de ouro: Critique, critique, critique... Lembre-se de um ditado muito utilizado entre os músicos: Quem aprende música e sabe tocar, vai ser músico. Quem não sabe, vai ser crítico.

12. Fuja – fuja correndo – de perto dos intelectuais verdadeiros. Eles, somente eles, podem descobrir que você é apenas um bocó metido a besta.
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Sim, hoje estou de TPM... Mas mesmo nos dias “normais”, continuo sem saco pra algumas baboseiras da internet... Hoje não, e nem nos outros dias...